

Validado por Sofia Santos

Sofia Santos
Especialista em Cosmética Natural, com experiência em controlo de qualidade, regulamentação e I&D.
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Ler o rótulo de um cosmético pode ser uma pequena dor de cabeça. Nomes longos, termos técnicos e abreviaturas que não dizem nada a quem não é da área. Por trás dessa lista, no entanto, há escolhas de formulação que cada vez mais pessoas começam a questionar, à medida que cresce a vontade de saber o que realmente aplicamos na pele todos os dias.
Este artigo não pretende alarmar nem condenar a cosmética convencional de forma absoluta. Pretende, isso sim, identificar os ingredientes que mais debate geram, explicar as razões desse debate, e apresentar as alternativas que a cosmética natural propõe para cada caso. Algumas preocupações têm suporte em estudos; outras baseiam-se sobretudo numa abordagem de precaução. Distinguir um caso do outro faz parte de uma leitura honesta do tema.
Os parabenos (metilparabeno, etilparabeno, propilparabeno, butilparabeno) são conservantes sintéticos usados em cremes, loções, champôs e maquilhagem. A sua função é impedir o crescimento de bactérias e fungos, aumentando a estabilidade microbiológica e a durabilidade do produto.
A polémica nasceu com um estudo de 2004, publicado no Journal of Applied Toxicology, que detetou parabenos em amostras de tecido mamário, levantando dúvidas sobre a sua possível atividade hormonal. O estudo foi, porém, muito criticado, uma vez que não provava qualquer relação de causa e efeito. Ainda assim, deixou uma marca difícil de apagar na perceção do público.
A verdade é que nem todos os parabenos são iguais. Segundo os pareceres do Comité Científico da Segurança dos Consumidores da Comissão Europeia (SCCS), os parabenos atualmente autorizados continuam a ser considerados seguros dentro dos limites regulamentares estabelecidos, enquanto outros tiveram restrições de concentração ou foram proibidos por precaução toxicológica. Foi essa incerteza, mais do que uma proibição generalizada, que levou muitas marcas a optar por fórmulas sem parabenos.
Existem hoje várias alternativas, como o ácido benzoico, conservantes obtidos por fermentação, como o leucidal. Nenhum sistema conservante é universalmente perfeito, e cada alternativa tem as suas limitações, mas todas permitem formular sem parabenos em determinados tipos de formulação.
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O SLS (Sodium Lauryl Sulfate) e o SLES (Sodium Laureth Sulfate) estão presentes em champôs, géis de duche, sabonetes e pastas dentífricas. São tensioativos responsáveis pela formação de espuma e pela capacidade de limpeza destes produtos.
O problema é que essa limpeza pode ser excessiva. O SLS é um conhecido irritante para a pele, sobretudo em quem tem pele sensível, eczema ou dermatite. Remove o sebo natural com tanta eficácia que pode comprometer temporariamente a função barreira da pele, deixando-a mais exposta a irritações e secura. Este efeito depende da concentração utilizada, frequência de uso e sensibilidade individual.
A cosmética natural troca estes sulfatos por alternativas mais suaves, derivadas do coco ou do milho, como os glucósidos. Embora produzam geralmente menos espuma, apresentam menor potencial irritativo e melhor tolerância cutânea em muitas formulações. Para quem está habituado àquela sensação de muita espuma, a mudança exige alguma habituação, mas costuma agradar a peles mais reativas.
Os silicones, como a dimeticona, são ingredientes sintéticos derivados do silício. Dão uma textura sedosa e uma sensação imediata de suavidade, deixando o cabelo com brilho e a pele lisa ao toque. Por isso aparecem em tantos condicionadores, primers, séruns e cremes.
A principal crítica aos silicones não é propriamente de segurança, já que costumam ser bem tolerados pela pele. O problema está sobretudo no ambiente. Alguns silicones, como o D4 e o D5, demoram muito tempo a degradar-se e foram identificados como poluentes preocupantes, estando já sujeitos a restrições na União Europeia. Alguns silicones formam um filme superficial oclusivo, o que pode alterar temporariamente a perceção sensorial da pele e do cabelo, embora não exista consenso científico de que "impeçam a respiração da pele".
Na cosmética natural, o conforto dos silicones é substituído por óleos e manteigas vegetais. O óleo de jojoba, por exemplo, apresenta composição lipídica semelhante à do sebo humano, enquanto a manteiga de karité e o óleo de argão dão suavidade e brilho de forma mais natural. No cuidado do cabelo, ingredientes como as proteínas de arroz ajudam a recriar parte do efeito dos silicones nos condicionadores.
"Fragrance" ou "parfum" é talvez o ingrediente menos transparente de um rótulo. Por trás de uma única palavra pode esconder-se uma mistura de dezenas ou centenas de compostos, que a regulamentação europeia permite não detalhar por serem considerados segredos de formulação.
Alguns destes compostos são alergénios reconhecidos. A lei europeia obriga a declarar as substâncias perfumantes potencialmente alergénicas acima de certos limites, e uma atualização recente da regulamentação veio alargar bastante essa lista. Ainda assim, é difícil saber qual a exposição cumulativa real ao longo de um dia, somando o champô, o desodorizante, o creme de corpo, o perfume e tudo o resto.
A alternativa natural são os óleos essenciais e, aqui, uma das principais vantagens é a maior transparência relativamente à origem da fragrância. Uma fórmula com óleo essencial de lavanda permite saber exatamente qual o ingrediente aromático utilizado, ao contrário do vago "parfum". Os óleos essenciais também contêm alergénios naturalmente presentes, mas há pelo menos clareza sobre a origem. A aromaterapia, enquanto disciplina, estuda precisamente as propriedades, utilização e precauções de uso dos óleos essenciais, o que ajuda a usá-los de forma mais consciente.
Importa também referir que "natural" não significa automaticamente mais seguro, uma vez que alguns óleos essenciais apresentam potencial sensibilizante, irritativo ou fototóxico dependendo da concentração e modo de utilização.
O BHA e o BHT são antioxidantes sintéticos que servem para conservar os ingredientes lipídicos das formulações cosméticas e impedir que fiquem oxidados. O BHA tem sido alvo de debate, por surgir em algumas listas de substâncias sob vigilância com base em estudos em animais. Importa, ainda assim, ser justo: nos cosméticos as concentrações são baixas e o uso continua autorizado na Europa, embora com restrições.
A cosmética natural cumpre a mesma função com antioxidantes, como a vitamina E (o tocoferol) ou o extrato de alecrim, ambos com bom historial de segurança. Alguns destes antioxidantes podem também apresentar propriedades antioxidantes cutâneas complementares, dependendo da formulação e concentração utilizadas.
O formaldeído é um conservante irritante e classificado como cancerígeno, com evidência científica sólida. Raramente surge no rótulo com esse nome, mas aparece indiretamente através de compostos que o vão libertando aos poucos, como a DMDM hidantoína, o quaternium-15 ou a imidazolidinilureia. São nomes difíceis, e é exatamente esse o problema: ninguém os reconhece à primeira vista.
Alguns destes compostos estão neste momento a ser reavaliados pelo Comité Científico da Segurança dos Consumidores da União Europeia (SCCS), que tem vindo a apertar os limites de segurança. É uma das razões pelas quais vale a pena aprender a identificá-los.
Na cosmética natural, a conservação faz-se com os mesmos ingredientes já referidos a propósito dos parabenos, sobretudo o ácido benzoico e os sistemas baseados em fermentação. É frequente utilizar sistemas conservantes multifatoriais, combinando diferentes substâncias conservantes e agentes auxiliares para melhorar a eficácia microbiológica da fórmula.
Nos protetores solares, alguns filtros UV de origem química têm levantado questões nos últimos anos. A oxibenzona e o octinoxato são os mais discutidos: vários estudos detetaram que a pele os absorve e que chegam a aparecer em análises de sangue, urina e até de leite materno. A FDA, a autoridade reguladora nos Estados Unidos, pediu mais dados sobre a sua segurança. Ao mesmo tempo, por existirem preocupações relacionadas com o impacto ambiental nos recifes de coral, algumas regiões introduziram restrições à utilização de determinados filtros UV em produtos solares.
A alternativa são os filtros minerais, como o dióxido de titânio e o óxido de zinco, que atuam sobretudo através da dispersão e reflexão da radiação UV, embora também possam absorver parcialmente parte dessa radiação. Nas suas formas tradicionais são considerados seguros e a pele praticamente não os absorve. Há, no entanto, uma ressalva honesta a fazer: quando estes mesmos minerais aparecem em nanopartículas, o seu comportamento é diferente e ainda está em avaliação, pelo que merecem igual atenção. Por isso, a cosmética natural costuma preferir as versões não nano, mais previsíveis. O seu único senão é estético: podem deixar um ligeiro resíduo branco na pele, algo que as fórmulas mais recentes têm vindo a corrigir.
Uma nota essencial: seja qual for a escolha, usar protetor solar é sempre melhor do que prescindir dele. A proteção contra os raios UV é uma das medidas mais importantes para a saúde da pele, e a discussão sobre filtros nunca deve servir de pretexto para deixar de a usar.
Todos os cosméticos vendidos na União Europeia seguem a chamada lista INCI, uma nomenclatura padronizada dos ingredientes. A regra principal é simples: os ingredientes vêm por ordem de quantidade, dos que estão em maior proporção para os que estão em menor.
Algumas regras práticas para uma leitura mais informada:
Para quem ganha gosto por este tema, há aqui muito por descobrir, seja para fazer escolhas mais conscientes no dia a dia, seja para um dia criar os seus próprios produtos. Perceber a cosmética natural não é só saber o que se evita, mas sobretudo conhecer os ingredientes que entram no lugar e o que cada um traz à pele.
E convém ter presente uma coisa: a lista de ingredientes a evitar não é fixa nem consensual. A ciência avança, a regulamentação europeia atualiza-se, e o que hoje é aceite pode ser revisto amanhã. Por isso, mais do que decorar uma lista negra, o que realmente vale a pena é aprender a ler um rótulo com atenção e perceber o que cada ingrediente ali faz. É essa literacia que distingue um consumidor informado, e também um bom formulador e permite fazer escolhas cosméticas mais conscientes e fundamentadas.
Este artigo tem um propósito exclusivamente informativo e educativo. A informação aqui apresentada não substitui o aconselhamento de um profissional de saúde, nem orientação dermatológica, jurídica ou regulamentar especializada.